“É PRECISO QUE PARTAMOS DA DÚVIDA

PARA ALCANÇAR A VERDADE” (René Descartes)

Por Luis Nhachote.

Tem sido useiro e corriqueiro, em jornais, programas de Tv´s, na internet e nas redes sociais, tanto nos “domésticos”, assim como em alguns internacionais, que assuntos de importância nacional, digo de Moçambique -, serem apresentados e as convicções que dai surgem e emergem muito como factos consumados ou verdades absolutistas. Um aspecto em particular tem estado sempre presente é que a apresentação de um assunto ou tema, que é tido como verdade inquestionável a partir do qual se constrói o resto do argumento. A repetição dessa verdade muitas vezes gera o automatismo que não se traduz em autenticidade.

Como aconselha o filósofo Descartes é preciso partir da dúvida para encontrar a verdade, e um dos temas que mais tem provocado ou induzido percepções e verdades absolutas prende-se com o debate sobre a dita “Divida oculta, em particular quando se fala da Kroll (a empresa que está a fazer ou fez a investigação). Sobre esta procura-se, repetidamente, apresentar essa empresa como de reputação internacional inquestionável. Esta insistência cria entre nós uma clareza absoluta sobre quem é a Kroll, embora não tenha nunca trabalhado connosco no passado, e prepara-nos mentalmente para aceitar sem questionar os resultados do seu trabalho.

Sem necessidade de colocar em causa a reputação da empresa, é preciso admitir como diz o filósofo Daniel Innerarity “o corrente, o tradicional e o repetitivo escondem o fundo das coisas e das pessoas como um escudo opaco”. Se alguém conta uma verdade, mas deixa por fora informação que deveria ser considerada pode estar a criar conscientemente ou não uma falsa impressão, mas vamos por partes:

A Kroll emergiu em 1972, por iniciativa de Jules B. Kroll, de nacionalidade Americana, nascido de uma família Judia em 1941 em Queens, nos Estados Unidos da América, onde o seu pai tinha uma empresa gráfica. Estudou na Universidade de Cornell (onde pertenceu a uma sociedade prestigiosa,

mas secreta denominada “Quill and Dagger”) e na Universidade de Direito de Georgetown (Georgetown University Law).

Em 1993 a maior empresa seguradora dos Estados Unidos da América e um dos líderes em serviços financeiros, American International Group, Inc. (AIG) comprou acções na Kroll, passando a ser um dos sócios de peso. Em 2004 a empresa Marsh & Mclennan Companies (MMC) comprou a Kroll por cerca de 1.9 biliões de dólares. A MMC foi fundada em 1905 em Chicago com interesses em seguros e serviços financeiros. Em 2001 engajou-se em acções ligadas ao antiterrorismo e contratou o Embaixador L.Paul Bremer (o famoso Diplomata que dirigiu o Iraque logo após a invasão) como seu “Chairman”. Há informações que indicam, que no mesmo ano, a MMM é acusada de fraude e corrupção, pelo Procurador do Estado de Nova York Eliot Spitzer. Isto levou a uma solução em tribunal que incluiu a saída do seu Director Executivo, Jeffrey W. Greenberg.

Em 2008, Jules Kroll deixou a empresa que criou, embora tenha tentado sem sucesso readquiri-la mais tarde. O insucesso levou-o a criar duas novas empresas, a Kroll Bond Ratings e a K2 Global Consulting, sendo que a primeira está ligada a categorização de obrigações de tesouro e a segunda a inteligência (espionagem).

Em 2010, outro grande “player”, a Altegrity, Inc. comprou a Kroll por 1.13 biliões de dólares americanos. Por sua vez a Altegrity, Inc é propriedade de Providence Equity Partners, um conglomerado com interesses primários em meios de mass media e comunicações, com investimentos em cerca de 140 empresas, entre elas canais de televisão. Em Fevereiro de 2015 foi noticiado que a Altegrity tinha declarado falência e recorrido ao famoso “Chapter 11” para protecção pelo Governo Americano.

A Kroll tem o seu escritório central em Nova York e subsidiárias em muitas cidades americanas e Canadá. Os escritórios para Europa. Médio Oriente e Africa (EMEA) estão baseados em Londres com ramificações em Madrid, Barcelona, Paris e Milão. O escritório de Miami serve como escritório central para a América Latina, e por sua vez tem escritórios na Argentina e Brasil. Aqui, há notícias de que em 2004, na operação “Jackal”, os escritórios da Kroll e residências de alguns funcionários foram vasculhados pela Polícia Federal, onde confiscou material, incluindo

equipamento de espionagem e foram detidos 5 executivos da empresa. A justiça Brasileira acusava aquela empresa de espionagem numa disputa entre duas empresas de telecomunicações, sendo uma Brasileira e outra Italiana.

A Kroll emprega cerca de 2800 funcionários em todo o mundo, entre os quais ex-agentes do FBI, ex-polícias, contabilistas, detectives, jornalistas, etc. , e aparentemente está presente em todos os Países, o que se supõem que esta em Moçambique já há algum tempo.

Estes factos (e outros não indicados aqui) estão disponíveis na internet e por isso públicos. A sua leitura cuidada deveria arquear as sobrancelhas de qualquer pessoa, antes de este pensar e passar a imagem, de que a Kroll está aquém de qualquer suspeita. Há centenas de perguntas que se podem levantar com base nestes factos.

A informação disponível diz que em 2004 a Kroll foi vendida a MMM por 1.9 biliões de dólares e seis anos mais tarde a MMM vende a empresa a Altegrity por 1.13 biliões de dólares. Será que a empresa nesses 10 anos perdeu o seu valor em cerca de 800 milhões de dólares? Se sim, o que é que aconteceu que desvalorizou a empresa? Se não foi perda do seu valor então porque vendida mais barato num declínio de quase 80 milhões de dólares por ano?

Além disso, o primeiro comprador da Kroll foi investigado e acusado pela Procuradoria de Nova York de fraude e corrupção. O caso foi resolvido em tribunal. Isto não mancha nem um bocadinho o registo criminal da Kroll? O segundo comprador (que comprou mais barato) nalgum momento parece que declarou falência e recorreu a protecção do Governo. Isto não faz pensar um pouco mais sobre a reputação da Kroll? Talvez haja uma explicação mais plausível para que isso não aconteça. Se sim, qual é a explicação? O assalto aos escritórios da Kroll pela justiça Brasileira, não levanta suspeitas sobre a integridade da empresa? Talvez não para alguns, pois alguns diriam que entre os dois (Kroll e Brasil), o Brasil tem muita fama de corrupto. Mas mesmo assim, seria um assunto a cavar um pouco mais, antes de construir certas convicções.

A Reuters (uma agência internacional de notícias), na boca do seu jornalista Mathew Goldstein, em Setembro de 2009, escreveu um artigo que poem em causa a credibilidade da Kroll num caso que envolvia o seu cliente “Stanford Financial Group” acusado, julgado e condenado pela justiça

Americana de corrupção massiva. Diz o artigo, que Stanford contractou a Kroll de Miami para “polir” a sua imagem perante uma investigação criminal que estava em curso. A Kroll, aparentemente tentou proteger o seu cliente, mas o dono e chefão da Stanford Financial Group, o sr. Allen Stanford acabou condenado. Mentira ou verdade esta história, merece que seja apurada para termos a imagem mais compreensiva sobre a empresa que nos está a ajudar a desvendar a dívida oculta.

Um “post” na internet de um Juiz de um tribunal de Nova York dá conta que em 2011 corria um caso judicial envolvendo a Kroll. Neste caso uma empresa denominada “Platinium Partners Value Arbitrage Fund LP” levantou uma acção judicial contra a Kroll por esta ter falhado num contrato em que a Kroll deveria avaliar o risco de uma empresa denominada Banyon Investments LLC, que estava a pedir um empréstimo de 20 milhões de dólares a Platinium. Acontece que a Kroll não encontrou risco e a empresa largou os 20 milhões para depois vir a saber que tudo foi parte de um esquema fraudulento, que a Kroll poderia ter descoberto se tivesse feito investigação simples, mas abrangente e profissional.

Mais terra a terra, não fica claro como é que Moçambique chegou a Kroll, pois parece que esta empresa não era conhecida anteriormente. Que concurso é que houve para a sua selecção? Como foi selecionada? No concurso (se houve) concorreram também empresas Moçambicanas ou estas foram excluídas desde o início? E porque?

As respostas a estas questões não pretendem pôr em causa o profissionalismo da Kroll nem a sua competência para trabalhos de natureza que está a realizar no caso da dívida oculta. Alguns feitos assinaláveis da empresa são conhecidos e estão registados, tais como a perseguição das fortunas de Estado desviados por Ferdinando Marcos, ex-Presidente das Filipinas, Jean-Claude Duvalier, ex-Presidente do Haiti, Sadam Hussein, ex-Presidente do Iraque, etc.

Estes casos e outros disponíveis nas páginas da internet, não negam a competência da empresa que está a descortinar a chamada “dívida oculta” em Moçambique, pois como diz o filósofo citado anteriormente “a sinceridade não é o contrário da mentira, mas sim, o contrário de automatismo”. E é o automatismo que está em causa. Neste caso automatismo para acreditar colectivamente que a Kroll é imaculada, e por isso o que escreve ou diz é imaculado.

Quando todos estamos de acordo com um facto, é de suspeitar que processo de formação de opinião não foi dos melhores. A diferença engradece e o respeito por ela ajuda a compor a verdade inteira e entender melhor como entramos nesta crise.

Como sociedade em construção devemos assumir que sim somos produtos do passado, mas não seus prisioneiros. Para tal devemos entender os erros de ontem em toda a sua dimensão para nos libertar das guilhotinas do passado e caminhar em frente.

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