A solidariedade, sobretudo interna, sem o mínimo de intenção de subestimar a solidariedade externa, pelo contrário, manifestada de diferentes formas, para com as vítimas directas do ciclone tropical IDAI, encerra uma estrondosa vitória sobre os seguidores e fanáticos de tribalismo e regionalismo, dois fenómenos que lamentavelmente tendem a consolidar-se em alguns sectores de moçambicanos.

Mal o IDAI chegou e espalhou a sua crueldade desprovida do mínimo de humanismo, não foi necessário qualquer mobilização. A solidariedade de todos os moçambicanos foi espontânea, sem preocupação de espécie alguma sobre o epicentro da tragédia humanitária que enlutou o país inteiro. A mera referência à região afectada foi o mero imperativo jornalístico, que determina a pergunta “onde”, quando se vai construir uma notícia, sendo que neste caso não havia como abrir excepção. Impunha-se precisar o local da tragédia. Essa precisão de forma alguma foi no sentido de decidir se nos solidarizamos ou não.

A solidariedade demonstrada pelos moçambicanos para com as vítimas directas (todos somos vítimas) da catástrofe natural veio provar que quando se trata de solidariedade, os moçambicanos, onde quer que estejam e onde quer que as coisas estejam a acontecer, não têm mãos a medir. Veio, acima de tudo, desfazer uma série de equívocos sobre a Unidade Nacional, e fundamentalmente veio traduzir uma derrota para os tribalistas, regionalistas, chauvinistas, xenófobos, e por ai em diante.

Está-se vendo um movimento de solidariedade nacional (e internacional) que não há memória. Mau grado as centenas de vidas humanas perdidas, que jamais podem ser recuperadas, e a destruição inqualificável e não quantificável, os efeitos dramáticos e desumanos do IDAI trouxeram-nos uma grande lição que nos deve ajudar a sentarmos e fazermos uma reflexão mais séria e profunda, sobre o tipo de relações que nos orientam como moçambicanos, ao nível interno e externo.

Por outro lado, as primeiras pessoas que se fizeram a Beira para salvar os necessitados foram de raça branca (sul-africanos). Isto tem um significado extremamente importante e o registo que fica deve ajudar-nos, como moçambicanos, para uma mudança radical de comportamento, quando olhamos para os outros.

As manifestações de tribalismo, regionalismo, xenofobia, chauvinismo e outras manifestações ruins e negativas, que ao nível interno começam a despontar, foram derrotados pelo movimento de solidariedade que assistimos. Todos os que não olham para a Unidade Nacional dos moçambicanos foram derrotados.

A solidariedade elevadíssima de todos os moçambicanos, sem distinção de espécie alguma, expressa para com as vítimas directas do ciclone tropical IDAI, tem essencialmente muito a ver com o facto de que hoje não se encontra sequer uma única pessoa que não tenha sido afectada pelo desastre humanitário de Março, ainda que seja de forma indirecta.

A Unidade dos moçambicanos não se circunscreve apenas aos laços de consanguinidade, mas sim por afectividade e algum relacionamento. A solidariedade revelou um gesto poderosíssimo que impõe aos moçambicanos lições inadiáveis a explorar para o nosso próprio benefício.

Esta é a vitória da solidariedade dos moçambicanos sobre o tribalismo, regionalismo, xenofobia e chauvinismo.   

A Unidade Nacional foi a arma fundamental com que os moçambicanos enfrentaram e venceram inúmeras e múltiplas adversidades. Isto fica agora, e uma vez mais demonstrado, com politiquices à parte, pelo que outra sugestão não se pode avançar, que não seja de resgatar esse valor, cujas acções de exaltação escasseiam.  

(Baltazar Montemor)

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