“Não estive no local, tudo que acompanhei foi pela imprensa. O número de mais de 600 mortos, devia alarmar-nos, que eu me recordo de todas as estatísticas que eu li, não me lembro de registarmos tantas mortes com um evento destes. De memória lembro-me que nas cheias de 2000/2001, no Vale do Limpopo, foram as que registaram mais mortes, e foram por volta de 200, e foram cheias de duas bacias, Limpopo e Incomáti. É uma questão de alarmar e tirar lição disso”.

Estas foram as primeiras palavras do Engenheiro Paulo Zucula, no início de uma longa conversa, suscitada pelos efeitos da tragédia humanitária que se abateu sobre a região centro do país, onde as estatísticas oficiais, que podem pecar por defeito, falam de número de mortos acima dos 600, com um rasto de destruição jamais visto, o que há memória, na sequência da passagem do ciclone tropical IDAI.

Paulo Zucula adverte que se hoje aparecesse um ciclone igual ao ciclone tropical Domoina, que em tempos devastou a capital do país, a cidade de Maputo sofreria um impacto igual ou pior que o da Beira, face às condições reais e actuais em que a cidade que se assume Moçambique em miniatura se encontra.

O Engenheiro dirigiu e modernizou a instituição que hoje se chama Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, tendo lidado com dois ciclones também devastadores, a começar pelo Favio, em 2006, que arrasou algumas zonas de Vilankulo, na Província de Inhambane, e Jokwe, em 2008, que distribuiu a sua fúria desumana pelas províncias de Nampula e Zambézia. Os dois ciclones tiveram magnitude similar ao do IDAI, variando as condições reais dos locais atingidos.

Relativamente aos efeitos devastadores do ciclone tropical IDAI, Paulo Zucula confessa, modéstia à parte, que não está em condições objectivas de fazer uma comparação entre o IDAI e os dois ciclones do seu tempo.
“Mas em teoria posso, com certa segurança, dizer que muitas vezes não é a força do ciclone que conta sozinha. O que conta sempre e sempre é a vulnerabilidade das pessoas, infra-estruturas e dos objectos que são afectados”, disse Paulo Zucula.

Há momentos em que uma precipitação de 30-40 milímetros, em 24 horas, pode estragar um lugar e criar problemas às pessoas, que são mais vulneráveis. Zucula exemplifica que 50 milímetros de precipitação fariam estragos na Beira, mas a mesma quantidade de chuva não faria tanto estrago em Lichinga, capital provincial de Niassa.
Por outro lado, considera Zucula, é igualmente crucial a preparação que se faz antes do evento, que juntamente com os outros factores vai ditar e determinar o impacto do evento extremo. “No caso da Beira, em teoria, de novo, e comparado com o Favio e o Jokwe, eu penso que a intensidade era a mesma. A diferença é que os dois foram formados entre Madagáscar e as Ilhas Reunião, enquanto o IDAI se formou no canal de Moçambique”.

Zucula explica que o canal de Moçambique é quente e intensifica o evento. Na maioria dos casos similares, os ciclones que se formam fora de Moçambique, geralmente quando cá chegam ganham velocidade, com a diferença principal a ser determinada pela vulnerabilidade em detrimento da intensidade.

Nos factores que determinam a vulnerabilidade, o antigo gestor do INGC aponta a população, destacando que a população da capital provincial de Sofala é excessivamente numerosa, quer em termos de quantidade absoluta de pessoas, quer em termos de densidade. As linhas de escoamento das águas da chuva estão bloqueadas, em consequência de construções mal pensadas. Já a costa de Inhambane é bastante menos populosa, idem a costa de Nampula. “A população conta e a forma como está distribuída”, sentencia Paulo Zucula.

Elenca como segundo factor de vulnerabilidade, o facto de quase toda a cidade da Beira estar abaixo das águas do mar, terras húmidas que facilmente se saturam com pouca água. “Eu me lembro que uma vez tive que correr para Beira, por causa de apenas 50 milímetros de chuva em 24 horas, com muitas pessoas afectadas, quando chuva igual passa despercebida em muitos outros locais do território nacional. Portanto, neste segundo factor de vulnerabilidade concorrem a população, a localização da cidade e a própria forma como é usada a cidade”.

No terceiro factor de vulnerabilidade está o facto de as grandes cidades pensarem que calamidade é apenas para os pobres. “Não estamos habituados a ver calamidade a bater cidades, pensamos que isso é para o vale do Zambeze, Caia, e as pessoas (nas cidades) acatam com menos confiança os avisos difundidos. Estas três coisas devem fazer diferença no impacto que Beira teve. Obviamente que o número de 600 mortos deveria alarmar-nos, é extremamente demasiado. Que eu me recordo, de todas as estatísticas que li, não me lembro de registarmos tantas mortes com um evento destes. De memória lembro-me que as cheias de 2000/2001, no Vale do Limpopo, foram os que registaram mais mortos, mas foram por volta de 200 óbitos, portanto muito menos da metade disso, e foram cheias de duas grandes bacias, Limpopo e Incomáti e abrangeram uma área muito grande. Portanto, 600 mortos, é para ficarmos alarmados e tirarmos uma lição disso”. (Continua)

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