O antigo Director Geral do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, Paulo Zucula, defende que a prevenção de ciclones e de outro tipo de calamidade, deve ser permanente, independentemente de se estar num ano susceptível de ocorrência de desastres naturais. 

Para Zucula, a prevenção permanente é o segredo para minimizar o impacto das catástrofes relativamente às vidas humanas e infra-estruturas. Lembra-se das simulações de catástrofe que eram feitas ocasionalmente, mesmo fora da época ciclónica. 

“Não sei quais foram os actos de preparação, mas em teoria preparação significa, porque este ciclone foi monitorado por mais de 15 dias, portanto houve tempo para tomar medidas que quando se trata de um ciclone se recomenda, desde a identificação de locais de vulnerabilidade. Através de mapas satélites pode-se identificar casa-casa, os locais seguros para albergar as pessoas, como igrejas, e a Beira tem muitas infra-estruturas sólidas’.

Paulo Zucula recorda que por razões de eventos extremos, as cidades da Beira e Maputo foram construídas com código Português, depois do terramoto que “queimou” Lisboa nos anos 1700. “Beira tem locais que podiam ter sido indicados para abrigo e normalmente se sabe que o ciclone vai chegar em oito horas, inclusive as rotas de evacuação podem ser identificadas. Em termos de infra-estruturas pode-se reforçar o telhado com mais prego, ou pura e simplesmente retirar o telhado e deixar a casa aberta e conservar as chapas de zinco num lugar seguro. Há até casos em que se reforça a porta ou tira-se a porta, porque a agressividade do ciclone, quando entra numa casa e ele não tem saída, leva a casa, se for fraca”. 

O antigo Director Geral do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades garante que esta instituição tem uma série de guiões de preparação, que ajudam imenso a minimizar os estragos. “Pelo que eu entendi pelos Media, as mortes não foram provocadas mais pelo ciclone em si, mas sim pela quantidade de água, o que mostra a diferença com Vilankulo, que não tem rios que podiam ter inundado. Em Sofala temos Pungue e Búzi que sempre dão problemas”.

Na sua opinião era possível minimizar o número de mortes? 

“Sim, era possível, em dois momentos. O primeiro é fazer coisas que já previnam o ciclone, mesmo que não esteja à vista, a gente sabe que um dia vai chegar, porque esta é uma zona ciclónica. Das últimas vezes que fui a Beira, percebi que estão a aparecer habitações em sítios que eu olhava e dizia: isto um dia vai pelos ares. Mesmo aqui em Maputo, tem sítios que eu olho e digo que não devíamos autorizar pessoas a construir aqui, isto um dia vai pelos ares. As pessoas já não se lembram do Demoina (ciclone), porque já passa muito tempo. Mas Demoina fez muitos estragos, e eramos uma população muito pequena, na altura, com menos infra-estruturas. Agora se aparecer uma coisa igual a Demoina, aqui em Maputo, vai ter um impacto igual ou pior que da Beira. Devia haver uma forma de prevenir, mesmo que não se saiba quando é que vem o ciclone, porque se sabe que um dia-há de vir”.

Paulo Zucula sublinha a importância dos aspectos preparativos, antes de o ciclone estar identificado, em que já se sabe que vai passar por uma determinada zona. Para o antigo gestor, no caso específico da Beira soube-se 3-4 dias antes, que o IDAI ia bater, e se tivessem sido accionados todos os aspectos de prevenção, podiam ter minimizado. “Mas três dias antes não tomas medidas que podem quase eliminar, podem minimizar as mortes, as casas destruídas e uma série de outras coisas. Portanto, podia-se ter tomado, não estou a dizer que não se tomou, porque como disse não estou lá. Provavelmente foram dados avisos, mas as pessoas não acataram. Eu me lembro que na noite do ciclone estava a ver televisão, passando de canal em canal, e não estava a ver os Media em pânico, no sentido positivo, alertando as pessoas, parecia que vem ai uma brincadeira, quando era uma coisa muito séria”. 

Era possível evacuar toda a Beira? 

“Não é pensável, primeiro porque mesmo que se evacuasse, eu não sei qual é o tamanho deste ciclone (IDAI), mas posso garantir que há ciclones que têm 500 quilómetros de raio. Quando foi do ciclone Favio, tivemos que retirar as avionetas de Inhambane, Vilankulo, Caia e alguns da Beira, para pôr em Tete, porque era o único sítio que a gente sabia que não iria chegar. Portanto, evacuar pessoas 500 quilómetros em 3-4 dias, é impensável, mas colocar pessoas em abrigos mais resistentes e mais fortes, é possível, porque o efeito ciclone, próprio, a sua parte gravíssima, não demora 12 horas. E saber, por exemplo, onde colocar tendas-hospital, centros de saúde. Quando vi aquelas imagens, em que as pessoas estão a ser atendidas praticamente na rua, em sítios molhados, eu digo que naquele caso provavelmente podiam ter sido identificados locais secos, e montar-se tendas-hospital, que não sei se o INGC tem, mas os militares têm”.

Paulo Zucula lembra que no seu tempo, quando Ivo Garrido era o Ministro da Saúde, no caso do ciclone Favio, quando se soube que o hospital iria cair, enviou três tendas grandes de medicamentos e no dia seguinte já havia tendas a atender às pessoas. 

Como é que souberam que o ciclone iria passar pelos locais onde tiveram de evacuar avionetas? “É muito fácil, o ciclone pode ser seguido com relativa facilidade. O ciclone pode ser seguido antes de ser formado. Se se estiver a monitorar na chamada zona de convergência intertropical, na zona tropical, nas zonas de baixa pressão, onde a temperatura das águas sobe, e as zonas de alta pressão, pode-se desconfiar que aqui vai haver uma turbulência, depois vai-se ver como é que ele sobe. E quando já é um ciclone você sabe uma semana antes. Talvez o que você não saiba é exactamente onde vai bater o olho, mas 3-4 dias antes é sabido, e então acciona-se as medidas de precaução. (Continua)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *