Ainda na esteira do trágico ciclone tropical IDAI, que oficialmente matou pelo menos 603 pessoas, o antigo Director Geral do Instituto Nacional de Calamidades, Paulo Zucula, defende que a vulnerabilidade é o que mata mais, e não necessariamente o ciclone em si.

Entretanto, se antes podia-se justificar tantas mortes, porque estávamos menos desenvolvimentos, sinónimo de maior vulnerabilidade, hoje fica complicado perceber como tanta gente morreu, quando o país se desenvolve a cada dia.


Paulo Zucula encontra explicação no que se pode chamar de memória curta. Diz que quando um evento de magnitude do ciclone tropical IDAI ocorre, são adoptadas todas as medidas, incluindo extraordinárias, reorganização de orçamentos, etc.


Todavia, se se passarem quatro anos sem que um evento extremo similar ocorra, esquece-se completamente de tudo, para um relaxamento total. “E isso torna o sítio vulnerável, só por baixar a guarda. E é tarefa do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, nós tínhamos feito isso, como nossa tarefa, a todo o momento, alertar às autoridades, que a prevenção não se faz no dia do evento. A prevenção faz-se todos os dias, quando se constrói uma estrada nova, quando se aprova uma estrada nova, tem que se ver os factores de engenharia, que vão minimizar a possibilidade de aquela estrada ser estragada. Já aconteceram casos em que isso não foi tido em conta, não vou indicar quais, inclusivamente a estrada provocou a vulnerabilidade, porque passou por um sítio que fechou as linhas de água”.


Paulo Zucula frisa que mesmo os locais que nunca sofreram com ciclones ou inundações, ou ainda outro tipo de calamidade, só pelo facto de sobre eles se ter edificado uma estrada, tornam-se vulneráveis, porque se fechou as linhas de escoamento das águas pluviais, criando-se um problema grave.


“É preciso fazer um exercício contrário, e não seremos os primeiros a fazer, o Japão já faz isso por causa dos tremores de terra, a Indonésia idem, as construções já têm um código legal e obrigatório, para prevenir catástrofes humanitárias como aquela que se abateu sobre o centro do país. As acções de preparação e prevenção devem ser diárias, ninguém se deve esquecer. Não é só preparação quatro dias antes, esta é uma pequena componente, é todo o plano de desenvolvimento, toda a construção deve ser com base na nossa vulnerabilidade”, defende Paulo Zucula.


Algumas casas da Beira e Maputo foram construídas massivamente com muito betão e muito ferro, em obediência ao novo código de Lisboa, decretado depois do tremor de terra que “deu cabo” da capital portuguesa, sendo de cumprimento obrigatório, numa clara intenção de redução da vulnerabilidade.


Para o antigo gestor do INGC, a edificação de qualquer empreendimento, incluindo habitação, deve obedecer às condições específicas do local onde a obra vai ser executada. “Nem sempre deve recorrer-se necessariamente ao betão, hoje a Ásia usa muito bambu para mitigar os efeitos da vulnerabilidade, quer das inundações quer tremores de terra, porque o bambu é mais flexível, flutua, há razões objectivas para se recorrer a esta espécie natural, para que não haja tanto estrago na infra-estrutura, e isso até facilita mais para que as empresas de seguro entrem com coragem, para segurar as infra-estruturas. Hoje é muito difícil encontrar em Moçambique uma empresa de seguro que aceite segurar a sua casa contra ciclones. Pode aceitar fogos, mas contra ciclones é muito difícil, porque sabe que a sua casa é vulnerável”.


Capacidade institucional
“Há um fenómeno triste, no país, que não tem muito a ver com esses fenómenos, mas sim com o contexto geral, a começar pela cultura de mediocridade. O pensamento de que há coisas que para a gente fazer não precisa ser profissional, é óbvio. Isto é uma pura mentira, não há nada que é óbvio. Toda a gente pode cozinhar, se calhar até pode, mas nem toda a gente é cozinheira. Toda a gente pode passar roupa, provavelmente pode, mas nem toda a agente sabe engomar. Não é uma tarefa que qualquer pessoa pode fazer e sair da melhor maneira. Vemos isso muitas vezes, discussões sobre a política de agricultura, porque toda a gente pensa que pode fazer agricultura, parece uma coisa fácil. Não! É um acto de profissionalização, de habilidades, mesma coisa calamidades. Gerir calamidades é uma profissão. Desde a há muito tempo, a gente forma quadros numa área, com bolsas de estudo, gastamos dinheiro, mas depois não enquadramos correctamente, desenquadramos. E às vezes até nos esquecemos deles quando precisamos de quadros habilitados. O INGC tem pessoas que foram formadas, não digo que fizeram cursos superiores, por acaso tem um que estava no Conselho Técnico, que chegou a fazer mestrado, nestas questões de gestão de calamidades. Essas pessoas devem ser bem enquadradas. O INGC fazia, não sei se ainda faz, no tempo em que eu lá estava fazia, provavelmente ainda faz, duas ou três simulações em todo o país, por ano, mesmo que não houvesse nenhum evento. As simulações eram do INGC e dos comités de gestão local, que são muito importantes, em cada bairro, em cada aldeia, onde normalmente deve haver um grupo de voluntários, que são formados e dotados de manuais, sabem fazer os avisos, sabem identificar os problemas, sabem para onde se evacuam as pessoas em caso de necessidade, ocasionalmente fazem uma simulação para as pessoas se recordarem de que há evento que pode ocorrer. Portanto, é preciso fazer este enquadramento permanente, ir-se buscar pessoas que sabem, se não existem, formar. O que eu digo é que, talvez não é suficiente, mas há capacidades que foram preparadas, quem diz no INGC diz noutras áreas também, os ministérios têm capacidade de formar e há muita gente não enquadrada, há pessoas que foram formadas e precisam de ser orientadas e enquadradas para darem o seu contributo em conhecimento que adquiriram para ajudar no desenvolvimento do país. Portanto, essa mentalidade tem de desaparecer para estimular os quadros e recursos humanos a fazerem aquilo que eles são capazes de fazer e são os melhores a fazer. Há que fugir desta coisa de protagonismo, o país tem muito disto há muitos anos, as pessoas querem jogar o protagonismo para serem vistas que estão a fazer, não porque sabem fazer, mas querem ser vistas. Temos que dar a César o que é de César e dar a Deus o que é de Deus. Quem é técnico é técnico e quem é político é político”.

(Continua)


Baltazar Montemor

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *