“Temos que estar sempre com a cabeça para aprender. Depois da minha experiência no INGC (Instituto Nacional de Gestão de Calamidades), depois de tudo que fizemos e estudei sobre calamidades, do que eu li, a história das próprias calamidades que aprendemos, devo dizer que temos que quebrar o paradigma e mudar completamente o nosso pensamento no conceito calamidade”, afirma o Engenheiro Paulo Zucula, que foi responsável pela modernização do INGC, enquanto foi Director Geral da instituição.
Paulo Zucula vê em qualquer calamidade uma oportunidade que o ser humano deve saber aproveitar e capitalizar. “Calamidade só é calamidade por causa da vulnerabilidade. É preciso reduzir a vulnerabilidade”.


Zucula reconhece que esta visão não pode ser imediatista, mas sim de longo prazo. “Esta é uma tarefa mais de longo prazo, mas é preciso começar. Calamidade também é uma oportunidade”.


O entrevistado observa que a sua visão não significa de forma alguma que esteja a pregar para que o país seja assolado por calamidades. “Não estou a dizer que é bom que haja calamidade. O que estou a dizer é que a natureza tenta se balancear e tenta criar um ambiente bom para nós, nós é que a contrariamos. Se for a ver, todas as calamidades têm uma oportunidade da mãe natureza”.


Para não ficar no abstracto, Zucula avança com exemplos concretos. “O ciclone, por exemplo, funciona como um ar condicionado gigante que balanceia as temperaturas. Se não houvesse ciclone, com as mudanças climáticas, mais facilmente a temperatura de alto grau que se forma na convergência intertropical, chegaria ao continente. A quantidade de pessoas que morreram por aquecimento seria muito mais do que aquilo que o ciclone mata, e seria mais difícil parar, porque quando é a temperatura que está a 50 graus (centígrados), ninguém sobrevive, nem o ar condicionado aguentaria”.


Segundo Zucula, os ciclones formam-se para evitar este desastre ecológico, todavia, durante o processo o fenómeno destrói, mas tem um lado de vantagem, conforme demonstrou. O outro lado da vantagem do ciclone é a distribuição da camada superficial do topsoil (camada superficial do solo), a parte orgânica dos terrenos agrícolas. Isto é bom, não é nada mau. Por outro lado, ao longo dos quatro anos que se seguem a inundações a fertilidade dos solos duplica.


“Nos tempos passados, antes da nossa existência, nós os cientistas e governantes modulados a três pancadas, as pessoas celebravam cheias. A população da Mesopotâmia, hoje Iraque, nos rios Tigre e Eufrates, se passassem quatro anos sem inundações pensavam que os deuses estão zangados e promoviam cerimónias para haver inundações. No Egipto, se o Rio Nilo não inundasse durante longo tempo, as comunidades também achavam que os deuses estão zangados e faziam cerimónias e algumas das cerimónias eram macabras, com o sacrifício de pessoas, porque queiram inundação, porque a inundação fertiliza os solos, cria novas fontes de alimentação do peixe, trás fortuna”, diz o antigo gestor do INGC.


Paulo Zucula sublinha que a vulnerabilidade quer das pessoas quer das infra-estruturas é a “mãe” de toda a desgraça que se abate sobre Moçambique, sempre que por cá passa uma tempestade, não interessa a dimensão.
“O que estou a dizer é que é preciso começarmos a pensar que calamidade só é calamidade porque somos vulneráveis. A calamidade trás com ela oportunidades. Por exemplo eu acho que agora Beira era momento de saber, se vale a pena continuar com os planos de urbanização que temos para Beira. Ou vamos aproveitar esta oportunidade e tirar uma lição e dizer que não vale a pena. Vamos mudar estratégias, vamos para Dondo ou um outro sítio”. Segundo o Engenheiro, mesmo os tremores de terras, sob ponto de vista geológico, têm uma vantagem. Redistribuem a riqueza dos minerais do subsolo. A cinza, que sai dos vulcanos, cria uma fertilidade muito grande nos terrenos agrícolas.


“Então nós temos que quebrar paradigmas e ver que a calamidade é uma oportunidade de negócio e desenvolvimento”.
Zucula lembra que há 100 anos, por exemplo, no centro e norte da Europa, a neve era uma calamidade, mas hoje tem chalés, e a região tornou-se um grande potencial para fazer turismo, é um negócio com esqui, e ganha-se muito dinheiro. “Não estou a dizer que a neve não continua a provocar problemas, quando há avalanches, mas sai mais a notícia do esqui, do que a notícia da pessoa que morreu com avalanche, é uma oportunidade que se abriu.
Para o antigo gestor, é isto que temos que ir fazendo, ao mesmo tempo que reduzimos aos poucos a vulnerabilidade na construção de estradas, de casas, nas pessoas, na distribuição espacial das pessoas.


Por outro lado, Paulo Zucula rebate a tese de que comunidades vivendo em zonas de risco oferecem resistência para se transferirem para zonas seguras, mesmo depois de muitos apelos das autoridades e perante risco iminente. E é verdade que há resistência das pessoas em mudarem-se para zonas seguras, mas há uma outra verdade.
“Nós pensamos muitas vezes que por termos ido à universidade sabemos mais que a população, que vive lá há muito mais tempo. Eles têm outras formas de medir o risco, que não são iguais aos dos nossos compêndios. É preciso combinar o conhecimento dos nossos livros, o que não é mau, mas não é completo, com o conhecimento das pessoas. E isso amolece a resistência, começamos a falar a mesma língua.


Paulo Zucula idêntica outra razão para a resistência, por sinal mais de fundo e sublinha: A outra questão é antropológica, que os antropólogos têm de estudar. Os chefes locais, os régulos, mambos, etc., são chefes do território, e não necessariamente da população. Quando você evacua a população, porque o território dele vai ficar inundado, vai para o centro de acomodação, ele deixou de ser chefe, não tem mais população. Com o reassentamento, ele passa a ser súbdito do régulo do território onde ele vai sentar, e ele não aceita. Então na calada de noite vai dizer à sua população vamos voltar para onde estávamos, porque ele quer ser régulo”.


Zucula não fala vagamente: “Houve casos em que quando entendemos isto, já não íamos de casa em casa das pessoas, íamos ter com o régulo, negociar com ele e as coisas ficavam mais fáceis. Portanto esses fenómenos sociais, culturais, antropológicos, devem ser entendidos. Há pessoas que na sua casa têm uma árvore, em Gaza acontece muito, que chamam “gandzelo” (espécie de santuário), onde as pessoas vão “phalhar” (evocar os antepassados), vão rezar aos deuses deles, e você vai dizer que vão reassentar noutro lugar e a árvore não vai. Fica difícil, ele resiste. Essa resistência não é uma resistência de pura teimosia, de uns ignorantes quaisquer, tem por trás razões que é preciso entender, para depois trabalhar por cima das razões e conseguir o que nós desejamos para capturar a oportunidade dos eventos extremos naturais para reorganizar a população, sem ofender culturalmente as pessoas, nem autoridade nem as questões antropológicas culturais e sociais que existem.
Baltazar Montemor

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