Com ou sem aperto, o Congresso Nacional Africano, ANC, ganhou as sextas eleições gerais realizadas no passado dia 8 de Maio. Desde cedo, as projecções indicaram essa tendência, com o ANC na liderança, seguido da Aliança Democrática e do partido de Julius Malema, sendo que este é claramente o maior ganhador deste sufrágio.


Com efeito, o ANC venceu as parlamentares com menor percentagem desde 1994, pois dos 400 assentos no Parlamento, o partido no poder, há 25 anos, vai ocupar 230 e perdeu 19. A Aliança Democrática, maior partido da oposição, perdeu cinco lugares, passando a ocupar 84. Os Combatentes pela Liberdade Económica ganharam mais 19 assentos, passando a ocupar 44 lugares na Assembleia Nacional sul-africana.
Esta tendência é tão natural como continuará a sê-lo, pelo menos ao longo da próxima geração (próximos 25-30 anos), pois o regime do “apartheid” foi tão cruel que os sul-africanos não podem mudar o rumo da história da África do Sul pós regime racista de minoria branca.


O que começa a mudar é o conforto com que o ANC de Nelson Mandela começou a governar a África do Sul, num claro cartão amarelo ao partido libertador, face ao passado de pouca glória com que as lideranças se foram sucedendo, com epicentro em Jacob Zuma, associado a graves escândalos de corrupção, que chegaram a levar à captura do Estado.


A economia não só não deixou de crescer, como em alguns casos regrediu, traduzindo-se numa pobreza exacerbada, sobretudo para as maiorias, com índices de desemprego que vão para além de30 por cento, sendo que os jovens são os mais afectados.


As projecções de abstenções são suficientemente elucidativos, sobre o grau de insatisfação, claramente com o ANC. A abstenção junta-se aos cerca de seis milhões de jovens que pura e simplesmente nem se deram ao trabalho de se recensear para votar.


Nesta sexta eleição geral, o ANC vai estar naturalmente muito abaixo dos 64 por cento conquistados em 2014. Os resultados da eleição geral do passado dia 8 são claramente os piores de sempre, na história do ANC, desde 1994. É mais que óbvio que com estes resultados, os eleitores sul-africanos estão a penalizar o ANC (cartão amarelo) por tudo que aconteceu ao longo dos cerca de 10 anos do mandato de Jacob Zuma, numa governação marcada por escândalos de corrupção atrás de escândalos de corrupção, até se chegar ao pico do escândalo, que envolveu a família Gupta.


Não menos importante neste rol de escândalos de corrupção, a insolvência de um banco, na
região do Limpopo, que ao que tudo indica, arrasta toda a nomenclatura do ANC. Há claramente um défice de confiança relativamente a este partido, e apesar de tudo que Cyril Ramaphosa fez ao longo dos 15 meses em que está no poder, prevalece o défice.


Não se pode duvidar de que as perdas do ANC são ganhos para a oposição, nomeadamente para os dois principais partidos, a Aliança Democrática e os Combatentes para a Liberdade Económica. Por outro lado, nesta eleição surgiu igualmente um novo partido, mais de direita, o Economic Freedom Fighters, de inserção africana, que logrou uma recuperação espectacular.


A extrema-direita sente que está a ser ameaçada, especialmente quando se fala da expropriação de terras sem compensação. Face às metamorfoses sofridas pela Aliança Democrática, predominantemente branco, pelo facto de a partir de um dado momento ter começado a abrir-se também a negros, nas suas hostes, os brancos radicais começaram a entender que os seus interesses são melhor servidos dentro do Economic Freedom Fighters e não necessariamente dentro da AD.


Independentemente de tudo, é espectável que nos próximos 25-30 anos (uma geração) o ANC vai conservar o benefício da história, para se manter no poder, como indiscutivelmente está desde 1994. A explicação óbvia para esta tendência está na dureza que foi o sistema de opressão do regime do “apartheid” na África do Sul. Um sistema altamente “racializado”, uma ferida que continua muito aberta, na sociedade sul-africana. Por esta e outras razões, o ANC ganha esta eleição, mas a qualidade da vitória não é a mesma que o partido conseguiu desde a libertação de Nelson Mandela.


Entretanto, Jacob Zuma não pode carregar sozinho a cruz pela degradação progressiva da imagem do ANC. O peso de tudo quanto Zuma andou a fazer, eventualmente não será maior que aquilo que a economia da África do Sul está a fazer, em termos de prejuízos para a vida das pessoas.


A economia sul-africana não está a produzir. É preciso lembrar que a economia da África do Sul foi construída numa clara separação em que uma minoria beneficiava em detrimento de uma maioria. A opressão sempre mostrou que quem construiu toda a pujança que a África do Sul exibe foi, desde toda a economia até às cidades bem estruturadas, a camada populacional mais oprimida, que logo pela manhã vai apreciar o luxo e no fim do dia volta para os bairros de lata, extremamente pobres.


Por outro lado, o lendário Nelson Mandela não esteve isento de erros, típicos da época. Um dos erros foram as promessas populistas de vida gratuita em pleno sistema capitalista. Começava com energia gratuita, latrinas gratuitas (a promessa mais ridícula), uma educação a custo zero, para certas camadas, expropriação de terras para posterior redistribuição gratuita, etc. sem que houvesse capacidade para satisfação plena de todas estas promessas. Thabo Mbeik prometeu igualmente vida boa, idem Jacob Zuma, e Ramaphosa também não escapa. Em consequência, as elites criam certa expectativa de satisfação quase impossível.
O Povo sul-africano foi extremamente brutalizado pelas diferentes potências coloniais que passaram pela África do Sul, desde os ingleses. Não se pode subestimar o papel da Inglaterra no desenvolvimento do sistema de segregação racial, no desenvolvimento de todo o sistema de exploração colonial. Seguiram-se os holandeses, os afrikaners, os franceses e todas as tribos europeias que foram para África do Sul, logo a seguir às guerras de conquistas na Europa, e os sul-africanos foram reduzidos a zero. É justo reconhecer que foi a pior colonização de que se pode falar no mundo.


Hoje, a África do Sul está entre os12 países mais desenvolvidos do mundo, e se a população banca constituísse, sozinha, uma sociedade única, o país de Nelson Mandela seria o sexto maior desenvolvido do mundo.


Isto explica por que razão, depois do “apartheid”, o ANC tinha de dar uma promessa daquilo que representava o fim do regime em termos efectivos. Não tendo sido correspondidas as expectativas, o ANC vê hoje um cartão amarelo.


Baltazar Montemor

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