O Governo sul-africano decidiu, com total naturalidade, conforme sempre previmos, extraditar para Moçambique, o antigo Ministro moçambicano das Finanças e deputado da Assembleia da República, Manuel Chang. 

Alertamos oportunamente, que a África do Sul se tinha metido numa “saia justa”, ao executar o mandado de captura solicitado pelos Estados Unidos da América, através da INTERPOL, de Manuel Chang, solicitação que inclui a extradição para a terra do “Tio Sam”, face à implicação desfavorável que isso tinha para Pretória, quer ao nível de toda a África quer ao nível da região, e em particular de Moçambique, país vizinho, com laços históricos e de consanguinidade a preservar.

Mesmo que os Estados Unidos ou o Ministério Público sul-africano venham a recorrer da decisão, será apenas uma simples queima de tempo, porque não haverá condições políticas ou de outra índole que falarão alto, para alterar a decisão ora tomada. 

Para a decisão do Governo sul-africano tinha de pesar factores de natureza política e legal. O aspecto político tem o suporte da vizinhança entre os dois países, ambos membros da SADC, para além de uma certa atitude de incerteza que pesa sobre Pretória, em relação ao resto do continente africano, em particular dos países vizinhos na África Austral.

A extradição de Manuel Chang para os Estados Unidos criaria, sem falta, um clima de incerteza na região, sendo que a África do Sul nunca gostaria de acentuar o desconforto que já pesa em demasia sobre Pretória. 

A África do Sul está mal vista no continente africano, por causa da decisão de Pretória, que contribuiu para o derrube de Muammar Gaddafi, antigo Presidente da Líbia, seguido do desastre e caos que ainda hoje afectam este país africano.

 Ao nível da África Austral, a África do Sul está a ser condenada pela sua posição arrogante e hegemónica, na dimensão económica. A África do Sul tem amigos, mas tem mais inimigos, pela forma arrogante com que tem destruído os projectos de desenvolvimento dos países seus vizinhos. Politicamente a África do Sul é amiga de Moçambique, mas grande inimiga economicamente e sempre fará de tudo para defender os seus interesses, e a competição vai ganhando a forma selvagem. Nesta investida em defesa dos seus interesses, claramente que a África do Sul vai fazendo e somando inimigos. 

Em resumo, a África do Sul nunca estaria interessada em deixar acentuar a má imagem e impressão que os estados da África Austral carregam consigo, por força da postura arrogante sul-africana em relação aos outros. 

Muitos estarão lembrados de que a África pressionou a África do Sul a votar contra um projecto norte-americano em sede do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ao nível da União Africana foi feita uma concertação que pressionou a África do Sul a tomar este posicionamento, o mesmo acontecendo ao nível da SADC. 

São cada vez evidentes os sinais mostrando que a África do Sul quer reconciliar-se com os países da África Austral e do resto do continente.   

Por outro lado, do ponto de vista legal, a maior parte do crime foi cometida em Moçambique, e quaisquer melhores interesses da justiça só podem ser servidos com um julgamento feito em Moçambique, mesmo reconhecendo que o senso comum reza que a justiça seria melhor servida com um julgamento feito nos Estados Unidos, uma visão claramente muito estreita da situação, sem pretender subestimar, igualmente, os interesses norte-americanos envolvidos. 

Outrossim, não é líquido assumir que os Estados Unidos estariam tão interessados em humilhar Moçambique, extraditando-se Manuel Chang para Nova Iorque. Washington vê no Moçambique um país com o qual tem relações privilegiadas, do ponto de vista geoestratégico e comercial. Sabe-se que os Estados Unidos estão a realizar investimentos enormes em Moçambique, um país com o qual Washington pretende prosseguir e manter relações extraordinárias. 

Entretanto, os Estados Unidos estão de parabéns pela advertência que nos fazem, sobre o profundo e melhor conhecimento que têm de nós, do que nós próprios nos conhecemos.

A África do Sul tomou uma decisão óbvia, que não surpreende. 

 Baltazar Montemor    

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *