Os últimos pronunciamentos públicos do Presidente da República, Filipe Nyusi, em entrevista a um jornal nacional, confirmam o que sempre prevemos, relativamente à desmobilização plena da Renamo.


Dissemos, de reforma reiterada, que a Renamo nunca cometeria o suicídio de desintegrar a sua máquina de guerra, o que equivaleria decretar o fim precoce deste partido militarizado.


Não o fez em 1992, quando foi do Acordo Geral de Paz para Moçambique, e também não o fará nunca, pois ficaria desprovida do seu melhor meio de pressão, quando ainda não alcançou o arcaboiço político para sobrevivência. Só a lei da natureza se encarregará da extinção da Renamo, tal como o fez com o seu líder histórico, que em vida escapou a muitas investidas.


Nyusi veio a público lamentar que a Renamo aparece hoje a fazer exigências fora do que acordara com o líder histórico, Afonso Dhlakama, relativamente ao processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR), dos homens residuais da Renamo, no âmbito dos consensos alcançados entre o Governo e a Renamo, com o objectivo de garantir uma paz efectiva e duradoura.


Quando em Outubro passado lançou formalmente o DDR, o também comandante em Chefe das Forças de Defesa e Segurança vaticinou que estávamos perante um passo “determinante no nosso roteiro da paz efectiva e duradoura, procedendo ao lançamento formal do processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração na sociedade, dos homens que a Renamo mantém”, justificando que a paz duradoura “é o melhor presente que podemos oferecer ao povo moçambicano”.


Tratou-se do arranque da segunda parte de uma negociação que o Presidente da República encetou com Afonso Dhlakama, após o cessar-fogo decretado pelo já falecido Presidente da Renamo, em Dezembro de 2016.


A primeira parte do processo levou a um acordo sobre a descentralização, que foi implementada com alterações pontuais à Constituição da República, e a consequente inserção do novo modelo de eleição nas leis eleitorais. Diga-se, em abono da verdade, o Governo foi mais longe demais e ofereceu, inclusivamente, o que talvez não devia! Esperava uma compensação da Renamo à mesma medida! Se sim, lamentamos profunda desilusão, embora fosse sempre previsível.


O Presidente acreditou tanto, a ponto de não ter ligado ao facto de a Renamo não ter nunca cumprido o que quer que fosse, sempre que se tratou de se desmilitarizar e conformar-se com o ordenamento jurídico da República de Moçambique, que não dá abrigo a partidos armados, entretanto, décadas depois, continua tolerada, numa excepção jamais vista.


Para não recuarmos em demasia, começaríamos com o Acordo Geral de Paz, cuja implementação previa, entre outras coisas, a formação do exército único, sendo metade da força proveniente do Governo e outra metade da própria Renamo. Era o processo de desmilitarização total da Renamo, que entretanto abortou. Inclusivamente o Governo reformou totalmente o exército em compensação à boa-fé da Renamo que afinal nunca existiu. A Renamo não mais completou a número de guerrilheiros a entregar, no tempo do Presidente Joaquim Chissano.


Mais tarde viria, em 2014, o Acordo de Cessação de Hostilidades, no tempo de Armando Guebuza, que gerou Equipa Militar de Observadores da Cessação das Hostilidades Militares (EMOCHIN), integrando elementos nacionais e internacionais, que entretanto acabaram deixando Moçambique sem cumprir a missão da integração, não interessa o custo que isso representou ao Estado moçambicano, USD 15,7 milhões. Na altura, ditou a extinção da EMOCHIN, os altos custos de manutenção da missão, aliados à falta de resultados para os quais fora criada, porque a Renamo nunca quis colaborar.


Não tenhamos a ilusão de pensar que a Renamo vai desmilitarizar-se. Pensamento igual representaria uma ingenuidade imperdoável. E porque nem a força das armas, como se provou há muito, seria solução, resta é sabermos conviver com esta realidade, como foi nos primeiros 20 anos depois do Acordo Geral de Paz, e esperar que a lei da natureza seja accionada pelo Santo Deus.
Mas não tenhamos a vaidade de pensar que isso será para já, porque guiando-se pela sua inteligência que permitiu chegar onde chegou, incluindo a valente assessoria externa, a Renamo nunca, por outro lado, parou de rejuvenescer a sua máquina de guerra, para garantir a manutenção de conveniência. E este exercício é bastante facilitado e estimulado pela conjuntura prevalecente, tal como no resto da maioria dos Estados Africanos, onde a fragilidade das estruturas sociais e políticas nos tornam férteis para a difusão de quase todo o tipo de extremismo.


É sabido que África, mais do que nunca, representa um terreno fértil para a difusão dos extremismos religiosos, ao mesmo tempo que se assume atractiva para Estado Islâmico e outros movimentos extremistas, precisamente em consequência das fragilidades das estruturas sociais e políticas. Enfim, atravessamos uma era de graves problemas sociais, que não estão muito longe de viabilizar a radicalização da população. É este mesmo quadro que em Moçambique propicia o rejuvenescimento da Renamo, que se aproveita dos níveis altos de pobreza e desocupação da maioria da juventude.


O Chefe do Estado, Filipe Jacinto Nyusi, esse arrisca a ser mais um Presidente da República de Moçambique a não conseguir, tal os seus antecessores, desarmar a Renamo, não interessa a manifesta força de vontade expressa e reiterada desde o dia em que tomou posse. E porque assim sempre pensamos, somos tentados a concluir que continuamos mais que certos.

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