Ainda ninguém apareceu a pôr em causa a tese de que as calamidades naturais que afectam o país e o resto da região, em particular os últimos ciclones tropicais Idai e Kenneth, resultam mais das alterações climáticas.

A ausência de qualquer tese contrária mantém o consenso de que a natureza está a retaliar o comportamento humano, em que se nota ausência total de alguma compaixão para com ela, quando exploramos a riqueza que nos proporciona.

Onde a retaliação da natureza é de todo condenável é no facto de não distinguir os verdadeiros causadores de desmandos contra ela, optando por uma repreensão inclusiva.

Ora, o Governo acaba de realizar uma conferência de doadores, para a angariação de fundos visando a reconstrução pós ciclones Idai e Kenneth, cujas necessidades estão estimadas em USD 3.2 biliões. Deste indicador houve promessas concretas que totalizam 1.2 bilião.

A questão é se tudo o que vier a ser anunciado como apoio pós ciclones é uma simples generosidade ou obrigação moral. Uma reflexão menos conseguida pode levar-nos a uma conclusão errónea, de se tratar de generosidade, quando na verdade é uma obrigação moral.

A explicação é tão simples quanto isto: Moçambique, enquanto país, não produz eventos de alterações climáticas. Moçambique não produz gás de estufa. Moçambique está desprovido de navios petroleiros que lavem os seus tanques no mar. Moçambique não produz plásticos que poluem os oceanos. Moçambique não tem aviação civil que polui o ar, de uma forma permanente, todos os dias. Moçambique não tem indústrias siderúrgicas, nem centrais nucleares que produzem produtos tóxicos. Moçambique é um país que num universo do mundo, é um país neutro. Idem o Malawi, o Zimbabué e outros países país ao mesmo nível que o nosso.

Entretanto, os ciclones são causados pelos eventos que provocam alterações climáticas. É verdade que sempre houve ciclones, mas estes do tipo do Idai e Kenneth, com o poder e frequência que se viu, resultam de alterações climáticas, geradas sobretudo por nações desenvolvidas.

Para essas nações, a poluição do meio representa criação de riqueza, que lhes confere estabilidade, construir as tais infra-estruturas resilientes, bem-estar, o poder, a tranquilidade, e no fim do dia, o alto nível de vida que elas têm.

Nós estamos a pagar o preço desumano de uma riqueza que não ficou aqui, nem nunca cá estará, de um problema que não fomos nós a criar. Não ficamos com benefício algum, senão com prejuízos. Logo, essas nações industrializadas têm a obrigação moral de apoiar Moçambique e outros países na mesma situação que a nossa.

Esse apoio não deve de forma alguma ser visto como um favor, mas sim uma obrigação de apoiar Moçambique, e de desembolsar os fundos necessários para reconstruir tudo que o país perdeu. Não é exigir de mais, que as nações industrializadas causadoras de poluição que provoca alterações climáticas, que culminam com eventos extremos, desembolsem recursos necessários para melhor reconstrução e construção, inclusivamente de melhores infra-estruturas, que aguentem com os próximos eventos extremos.

Um especialista da Organização Mundial da Meteorologia alertou na conferência da Beira, que a zona sul de Moçambique, nomeadamente as províncias de Gaza e Maputo, são as próximas regiões a serem severamente assoladas pelos próximos eventos. A pergunta que fica é: que culpa temos, para termos de pagar pelos ciclones e furacões, quando na verdade não somos culpados pela geração do aquecimento global, e cujo benefício não fica por cá?

Até indicação contrária, os países ocidentais têm a obrigação (moral) de apoiar Moçambique. Não podemos continuar “pedintes” de esmola, como se tivéssemos cometido um pecado, enorme.         

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