É fácil afirmar que os sul-africanos são ingratos, porque os ajudamos a libertarem-se do regime segregacionista do “apartheid”, mas fizemo-lo também para a nossa própria segurança, num claro mecanismo de auto libertação.


Em abano da verdade, a África do Sul não é obrigada a pagar-nos pelo serviço que prestamos. Temos de abordar o assunto de forma o mais ampla possível, incluindo ao nível da própria União Africana.


Fará sentido que pessoas de tão baixa capacidade em termos de capacidade para conseguir emprego, emigrem para a África do Sul, onde pressionam o sistema do país vizinho, de tal modo que acaba sendo uma relação de mútua exclusividade entre eles e os próprios sul-africanos? Claro que isso não retira a responsabilidade do governo sul-africano, de criar um ambiente que seja conducente a que a sua juventude tenha acesso a emprego justo, digno e devidamente remunerado.


A África do Sul conta hoje com uma taxa de desemprego de cerca de 26 por cento, sendo que a maioria dos desempregados são sul-africanos, a maioria jovens. É verdade que o desemprego não resulta necessariamente da existência dos estrangeiros, mas sim do facto de a economia sul-africana estar numa espiral para baixo.


As análises que se fazem sobre a xenofobia ou actos criminosos focalizam mais a instrumentalização, o que não se pode negar, mas a instrumentalização encontra espaço num terreno fértil decorrente da frustração e desespero, sobretudo dos jovens da sociedade sul-africana.


Sabe-se que desde 1994, quando a África do Sul foi libertada do “apartheid”, a esta parte, sempre ocorreram actos de xenofobia. Com o passar do tempo a população sul-africana está a aumentar, aumentando igualmente o nível dos desesperados, enquanto os níveis altíssimos de expectativa criada em 1994, são hoje o maior gerador dos graves problemas internos. No global, a população estrangeira que busca sobrevivência na África do Sul representa claramente uma minoria. Não representa quase nada na população sul-africana, que caminha para os 50 milhões de habitantes.


Entretanto, se a minoria dos estrangeiros se juntar em Joanesburgo, a título de exemplo, já não representa tão pouco assim, torna-se algo consideravelmente significativo. Nos espaços urbanos onde a população vive pior penúria, qualquer rastilho de instrumentalização, que até dispensa um político, funciona.


Por outro lado, a forma como a África do Sul se libertou do regime do “apartheid” propicia a violência brutal entretanto de todo condenável. Em termos comparativos, Moçambique fez a guerra de libertação do mato para cidade, com elevados níveis de padrões pedagógicos na proibição de utilização de armas para matar a população, principal elemento de segurança e de alimentação dos guerrilheiros. Em consequência, a Frelimo tinha uma excelente relação com a população, mantendo os níveis de violência extremamente baixos ou mesmo inexistentes.


Sucede que na África do Sul fomos dados a assistir a altos níveis de brutalidade do regime do “apartheid”, a exemplo do massacre de Sharpeville, e para contrapor as populações faziam guerra nas cidades. Só a luta anti “apartheid” abriu espaço urbano altamente violento, que se prolonga até aos dias de hoje. Logo, justifica-se e impõe-se uma abordagem bastante profunda e séria do fenómeno da população sul-africana.


Vale lembrar que o chauvinismo e o nacionalismo estreito que conduzem à violência prevalecente na África do Sul não é um fenómeno novo em África. Quando o actual Gana se chamava Costa do Ouro, fruto da quantidade quase infindável de outro que o país de Kwame Nkrumah detinha, sendo por isso considerado um país próspero, no contexto da sua prosperidade, todos os cidadãos da África Ocidental procuravam sobrevivência no Gana.


Sentindo-se “asfixiado”, em 1969 o Gana viria a decretar que todos os cidadãos nigerianos deveriam abandonar o país, sendo que 140 mil o fizeram. A Nigéria foi obrigada a organizar uma operação especial para evacuar os seus cidadãos do Gana.


A coisa viria a virar, quando a Nigéria descobre petróleo, transformando-se no maior produtor deste recurso ao nível de África, num fenómeno totalmente inverso. Em 1985 era a vez da Nigéria. Sentindo-se também asfixiada, decretou que mais de 400 mil cidadãos do Gana deviam abandonar a Nigéria, em sete dias.


Os dois exemplos não têm a mesma dimensão da xenofobia ou actos criminosos que assolam a África do Sul, mas somos tentados a admitir que afinal pode não ser um fenómeno tipicamente sul-africano.


O chauvinismo acaba sendo um fenómeno que prevalece em muitas partes do mundo, se é que nós somos uma excepção, pois entre nós também se fala com muita frequência de cantina do nigeriano, do maliano, do burundês, etc.


Esta abordagem nos alerta sobre a necessidade de não ficarmos tão sossegados assim, pois com o passar do tempo podemos não continuar imunes.

Já se justifica um debate desinteressado e desapaixonado ao nível da União Africana e ao nível dos países internamente. Por outro lado, os países africanos são desafiados a investir, no contexto das suas próprias economias, para minimizar o potencial de cidadãos seus, que abandonam as origens, numa situação de desespero, para irem pressionar situações em países terceiros.

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